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CLARA GESZTI: 1918 Budapeste – 2009 Itaipava

Nascida na Hungria ao terminar a primeira grande guerra na qual seu pai, Imre Steiner quase perdeu a vida por causa de um grave ferimento no ombro, Clara Geszti atravessou outra guerra, perseguições e revolução até emigrar, em 1957 com sua família, ao Brasil. Recém-formada em música, recém-casada com George, também músico, e o primeiro filho János recém-nascido, foi surpreendida pela segunda guerra mundial. Não teve contato nem notícia do marido durante os anos da guerra. Com identidade comprada para evitar os campos de concentração, abrigou-se com o filhinho contra os bombardeios de Budapeste sob a proteção de família camponesa no interior do país, ajudando na lavoura e tocando harmônio na igreja nos finais de semana.

Ao término da guerra, retornou à capital. Seu marido, de volta dos trabalhos forçados no exterior onde entreter os oficiais do exército com sua música lhe amenizou os sofrimentos, encontrou a esposa com o filho já de cinco anos na casa da mãe, pois a própria casa tinha sido avariada pelos bombardeios.

Com o filho e marido, recomeçou a vida, alterando o sobrenome da família, com receio de novas perseguições. Em breve nasceu outro filho, Gábor, e Clara se dedicava com envolvimento à reconstrução da Hungria aniquilada, colocando a ideologia anti-fascista e anti-imperialista à frente de sua profissão na música. Tanto em sua ideologia quanto em sua música, concentrava suas atividades em educar. Na educação infantil cuidava de crianças com necessidades especiais; escolinha de musicalização através de brincadeiras, teatrinhos, versos, cantorias, flautas e piano com freqüentes apresentações para familiares e para o público; colônia de férias com ênfase em música. Clara atuou em instituições de ensino desde o nível pré-escolar até a universidade, e na educação cívica no meio de camponeses e operários em todos os recantos do país, a incentivar a solidariedade e igualdade de direitos. Nasceu sua filha Júlia.

A tentativa fracassada da revolução em 1956 para se livrar do domínio soviético e conquistar a independência da Hungria, teve um efeito bombástico na vida de Clara; a família refugiou para o país vizinho, Áustria entre mais de cem mil húngaros. Ao incentivo do renomado pianista brasileiro Jacques Klein em Viena, o casal decidiu emigrar para o Brasil, terra em que a função da música teria riqueza especial e cumpriria papel de destaque.

Já no Rio de Janeiro, após o primeiro arranque bem sucedido para o sustento da família pela música, George foi escalar a aclive difícil na carreira do artista, enquanto Clara tentava estabilizar a economia familiar fazendo suas incursões no artesanato em miçanga e pintura em tecidos, abriu uma “Boutique” de modas em Copacabana em só de roupas de tamanhos grandes, mas sempre cuidando dos filhos e da educação musical de crianças, ao lado do marido, que se ocupava com as mais adiantadas no piano.

Com a aquisição de um sítio em Itaipava, a família cada vez mais se deslocava do Rio para o colo acolhedor do vale do Ribeirão Grande. Nas últimas três décadas de sua longa vida, Clara não mais arredava os pés daí, agregando família, amigos e admiradores.

A tapeceira Klara como assinava seus trabalhos, inteiramente autodidata, inventou por sua conta como fazer tapeçaria de parede, de um modo muito original, e sua criatividade em breve se manifestava nessa arte, movida da mesma garra criativa que já tivera na área da música e na educação. Suas exposições em breve ultrapassaram os limites da cidade de Petrópolis, do Rio e outras cidades brasileiras e foram conquistar o exterior. Nesse mesmo tempo cuidava das plantas, árvores e animais de seu jardim, e escrevia ensaios dentre os quais se destaca “Anos sem trégua”, sua autobiografia já em português, datilografada em 197 páginas que permanece inédita. Com o declínio, no envelhecimento, de suas energias físicas, teve que trocar sua tapeçaria por pinturas a óleo e acrílico em telas de variados tamanhos, de não menos originalidade (basta dizer que as começava no primeiro plano, a exemplo como o fizera em tapetes). Tapetes e quadros representavam o que ela mais amava: as plantas, e em destaque as que ela própria plantava dentro e fora de seu jardim, ou da Amazônia e do Brasil tropical que tanto ocupavam sua fantasia. A feitura de seus quadros e tapetes essencialmente lhe representava aventuras que jamais se repetiam, conforme ela mesma gostava de comentar, sendo-lhe inteiramente imprevisível o desfecho de cada obra, na medida em que avançava para o fundo da composição.

Com vasta biblioteca em húngaro, alemão e português a leitura lhe ocupava grande parte de seu tempo, em particular a poesia, diários, memórias, ficção e correspondência. Tópicos ligados à psicologia, sejam eles ensaios ou obras monumentais de grandes escritores e pensadores, ela as sublinhava e citava com prazer. Preenchia seu tempo tocando Bach em seu piano e nadando em sua piscina.

Raramente deixava Itaipava - e com o passar do tempo o Ribeirão, seu quintal, sua casa, sua sala, sua cadeira de rodas, seu quarto, seu leito, apegando-se à vida e às pessoas em sua volta. Suas cinzas são espalhadas ao pé de sua árvore preferida.


Matéria de Ian Guest