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Fonte de Vitórias no Automobilismo

Certa vez, ao ser questionado sobre o sucesso dos brasileiros nas pistas, o tricampeão de F-1 Jackie Stewart respondeu: “deve ser por causa da água que eles bebem”. A singela resposta do escocês ganhou as páginas de diversas editorias de esporte no Brasil. Se tiver algum fundo de verdade, não seria errado supor que a água de Petrópolis é “aditivada”. Afinal, a cidade serrana abriga cinco das principais equipes da Stock Car, a categoria de maior prestígio do automobilismo nacional. No manancial de lembranças também há diversas conquistas de pilotos e times locais, além das muitas corridas de rua que aconteceram no município no inicio do século passado.

A RBR Mattheis, comandada por Andreas Matheis, provavelmente é a mais conhecida das equipes petropolitanas. Afinal, o carro de número 0 do time chamado de Red Bull Racing é conduzido pelo tetra campeão da Stock Cacá Bueno. Mas também ficam localizadas na serra do Rio de Janeiro a A.Mattheis (Shell Racing), VS Racing (Voxx Racing Team), ProGP (Officer ProGP) e Vogel Motorsport. Todos são responsáveis pela preparação de 10 dos 30 bólidos que alinham no grid da Stock.

Vale lembrar que o sucesso não é restrito às competições de Turismo, como são chamadas as categorias que utilizam carros semelhantes aos usados nas ruas. As competições nacionais de monopostos também foram amplamente dominadas pelos petropolitanos. Nos anos 1980, a Petrópolis, então comandada por Wulf Seikel e Mauro Vogel, chegou a ser chamada de “McLaren da F-Ford”, por causa das inúmeras vitórias e títulos. Em 1989, em um grid onde alinhavam Rubens Barrichello, Pedro Paulo Diniz e André Ribeiro, o time que abrigou o campeão Tom Stefani e o vice Ricardo Mattos venceu 10 das 12 corridas da temporada. Exímio preparador, Vogel conquistou 17 títulos nacionais em diversas categorias.

Ainda nos anos 1980, os petropolitanos Jorge de Freitas e Andreas Mattheis dividiram curvas no Brasileiro de Marcas e Pilotos, categoria onde Mattheis, com tocadas precisas e muitas vitórias, fez história com um carro que ficou conhecido como “flecha de prata”. Na década seguinte, após trilhar as principais categorias de base do automobilismo europeu, Gualter Salles, também da região, foi um dos representantes do Brasil na F-Indy.

Enumerar vitórias e títulos de petrolitanos pode ser um mergulho em águas profundas. Mas o que nem todos que circulam pelas bucólicas avenidas da cidade imperial sabem é que, desde das primeiras décadas do século XX, Petrópolis foi palco de memoráveis corridas de rua. Algumas com públicos em torno de 50 mil pessoas. Um dado incrível não só por causa da comparação com a quantidade de torcedores que vão aos autódromos hoje, mas também quando se leva em conta a segurança de quem assiste às provas.

Quando nem se falava em guard rail, lâminas de aço que impedem um carro de escapar da pista em caso de acidente, o público margeava o circuito a poucos metros dos bólidos que passavam. Uma destas provas era a Subida de Montanha, que tinha como ponto de partida o município de São João de Meriti, com chegada no Quitandinha.

Estas provas, realizadas entre 1932 e 1946, além dos carros de ponta, atraiam pilotos de diversas nacionalidades, como Hans von Stuck, chamado de Bergkönig (o rei da montanha) . Enquanto demonstrava sua perícia ao volante, o piloto polonês encontrava tempo para admirar a exuberante paisagem e não foram poucas as vezes em que enalteceu a engenharia brasileira, pela construção de viadutos e pontes de concreto, fincadas em abismos. Algo que ele dizia não ter visto nada igual antes de acelerar na Rodovia Rio-Petrópolis, inaugurada em 1928. Entre os petropolitanos que se destacavam nas provas de rua da época estavam Manuel de Teffé e Irineu Corrêa, o leão de Petrópolis.

Enquanto Stuck demonstrava admiração pela engenheira nacional, os brasileiros ficavam de olho na performance de alguns dos modelos que participavam de corridas de rua e também do 1 km de Arrancada, que começou a ser realizada em 1933. Alfa Romeo, Mercedes e Maseratti estavam entre as marcas utilizadas.

Em 1948, foi realizada a primeira corrida Circuito de Petrópolis. O glamour da cidade atraía os pilotos para uma das pistas mais desafiadoras e difíceis da época. O trajeto com cerca de quatro quilômetros passava pela então XV de Novembro, hoje Rua do Imperador, catedral e museu imperial.

Portanto, transitar pelas ruas de Petrópolis também é entrar em contato com um dos esportes que mais títulos internacionais deram ao Brasil (falando apenas de F-1, foram três com Ayrton Senna, outros três com Nelson Piquet e mais dois com Emerson Fittipaldi). É percorrer trechos por onde passaram destaques locais como Ailton Varanda, Mário Olivetti, Norman Casari, Amilcar Baroni e Renato Peixoto, este último também um grande preparador de carro de corrida. É pegar carona nos primórdios da indústria automobilística, com seus DKW, JK, Simca Chambord, Karmann Ghia, Gordini, Berlinetas e Malzones, entre outros utilizados nas provas locais.

A última prova em Petrópolis aconteceu em 1968, época em que o fechamento do circuito de Interlagos para reformas fez prosperar as corridas de rua. No entanto, acidentes fatais com os pilotos Sérgio Cardoso e Joaquim Carlos Telles de Matos, o Cacaio, colocaram um ponto final neste tipo competição. Portanto, já faz tempo que o último champanhe para comemorar uma vitória foi aberto na charmosa cidade da realeza, mas a água que saciou a sede de diversas gerações de pilotos e preparadores de sucesso continua à disposição dos visitantes. Jackie Stewart nunca visitou a região serrana do Rio, mas talvez tenha encontrado a pista para as muitas vitórias, títulos e personalidades do esporte que jorram em sua história, uma verdadeira fonte de campeões.


Matéria de José Augusto Cavalcanti Wanderley
Entusiasta do automobilismo, possui uma grande coleção de miniaturas de carros em Itaipava.