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"Isso aqui era muito animado"

É com essa exclamação de entusiasmo que Célia Prates define a vida em Itaipava na época da sua infância e juventude. Sentadas na sala da casa onde ela nasceu, folheamos juntas álbuns de fotografias em preto e branco que registram as lembranças, bem coloridas, de uma menina criada no campo, numa época onde o telefone era de manivela, a luz vinha do lampião e o carro mais comum era o de boi.

Entre as tantas fotos, lá estava uma, datada de 1922, com um recorte de jornal colado ao lado: Notas de Verão - Grupo de convidados presentes à última festa no palacete do senhor Luiz Prates para o batizado de Célia. "Imagina você, palacete. Uma casa de pau-a-pique como essa aqui, construída em 1821!" Pois é, a história do Sítio Posto São Luiz começa bem antes do nascimento de Célia. Aquelas terras, nas primeiras divisões das sesmarias, pertenceram a José Cândido Monteiro de Barros, e por ter sido ponto de muda de animais no tempo dos tropeiros - tropas cargueiras que iam e vinham do Rio de Janeiro para as Minas Gerais negociar cachaça, pólvora, fumo, ferragens, rapadura e outros produtos mais - ficou conhecido como Posto São Luiz. A região, naqueles tempos, se chamava Paróquia São José do Piabanha e a Estrada Imperial, atual União Indústria, era considerada uma das melhores rodovias mundiais pois era pavimentada com pedra britada ou, como se dizia, feita de macadame, uma corruptela do nome do engenheiro inglês John London Mac Adam, que foi quem criou essa técnica de calçamento.

Continuando a história... Otávio Prates, avô de Célia, comprou as terras de Monteiro de Barros. Neto do Barão de Antonina - o bandeirante que alcançou o Paraná - e casado com Izabel, filha do Barão de Andaraí, Otávio realizou alguns feitos que o fizeram notável em Petrópolis: fundou o Liceu de Artes e Ofícios, a primeira escola profissional da cidade, e o Tiro de Guerra 12. Mesmo sendo considerado um grande patriota, Otávio se rendeu às modas da época e mandou o filho, Luiz Prates, estudar na Inglaterra. Só que o menino, dono de um temperamento inquieto e empreendedor, não se adaptou ao sistema britânico, quis voltar para o Brasil, e ainda rapaz se estabeleceu em Itaipava. Luiz casou-se com Sílvia Nioac de Souza e teve duas filhas: Lucia e Célia, nossa entrevistada. "Meu pai gostava de andar solto, era um sujeito entusiasmado pela vida. Ele adorava isso aqui e vivia fazendo coisas pela região. Minha mãe já era mais grã-fina, nasceu em Paris, morou na Alemanha. Ela estava acostumada à vida social e quando veio morar aqui estranhou muito. Depois vieram outras pessoas, formaram um grupinho bom, e ela acabou se adaptando. E tinha o meu pai que era muito alegre e bonitão."

Uma das atividades que Luiz Prates desenvolveu no Posto São Luiz foi a pecuária. Todo o Vale do Piabanha era considerado uma zona onde as pastagens nativas ofereciam aos criadores as maiores vantagens. E Itaipava, que reunia o maior núcleo de criadores do Vale, era a grande estrela das Exposições de Pecuária realizadas em Petrópolis e que contavam sempre com a presença de Getúlio Vargas. Célia conta que as propriedades eram tão grandes que nenhuma tinha cerca ou limite certo e que ela adorava acompanhar o pai nas cavalgadas pelos vales: "A única coisa que a gente podia encontrar mais perigosa era cobra, jararaca de verdade. Mas me lembro que uma vez nós encontramos com uma onça e eu, que estava na garupa do cavalo do meu pai, comecei a chorar. Ele não queria matar a onça - ele não gostava de matar bicho nenhum - e voltamos correndo. Outra vez uma preguiça abraçou minha irmã e ficou agarrada nela. Tiveram que tirar a roupa dela e ela chorou pra burro. Lembro também que nas terras do Argemiro Machado, lá para os lados do Vale do Cuiabá, tinha um quilombo. Eles viviam em comunidade e eram negros africanos puros. Eles tinham uma rainha muito velha, com mais de 100 anos."

Essas e outras histórias povoam a lembrança de Célia. Os piqueniques onde os rapazes se fantasiavam de bandidos e atacavam as mocinhas, os passeios de piroga - canoa feita de um tronco só - pelo açude do sítio, as andanças pelos trilhos do trem, as remessas de mantimentos vindos da Casa Colombo, a lhama que ficava presa nos jardins do Castelo e que, quando cuspia, botava toda a criançada para correr porque diziam que onde o cuspe caía nascia uma ferida... brincadeiras recheadas de aventura. Pergunto como ela se sente, tendo acompanhado o crescimento da região: "Eu acho que Itaipava podia ter crescido sem perder inteiramente as suas características rurais. Podiam ter conservado um pouco da sua história. A região estava crescendo aos pouquinhos mas de repente ficou desse jeito, super lotada, tudo virando condomínio, shopping, cheio de engarrafamento. Como é que pode? Cresceu demais e não foi proporcional, esse é que é o maior problema." Célia foi buscar um suco e uns biscoitinhos para animar a conversa e eu fiquei olhando a casa, vendo as paredes que se conservaram durante tantos anos mesmo sendo de pau-a-pique, imaginando como será viver no mesmo lugar durante toda a vida. Célia volta, rouba os meus pensamentos, e responde: "Isso aqui é o meu mundo."

Os garbosos escoteiros de Itaipava
"O nosso muito prezado e caro amigo, o sr. dr. Luiz Prates, dono dum coração formado pela bondade, caracter nobre, cultor duma intelligencia brilhante, realizou mais um bello e nobre ideal fundando um grupo de garbosos escoteiros em Itaipava. Este arrabalde, um dos mais ricos e bellos de Petrópolis, engrinaldado duma serie brilhante de palacetes - verdadeiros mimos d'arte e de poesia - Itaipava, que prima pela salubridade do seu clima, sem rival, pela fertilidade do seu solo, pelas bellezas peregrinas de que foi dotado tão prodigamente pela natureza, Itaipava pode-se ufanar mais deste progresso - o de ver marchar, garbosamente, em fileiras, a fina flõr da sua esperançosa juventude sob a sabia direcção do Escoterismo".

Getúlio sobe a Serra e recebe queixas
"Por ocasião de sua passagem por Itaipava, o presidente Getúlio Vargas e sua Exma. senhora visitaram todos os fazendeiros daquella bellissima estação climaterica... O Sr. Luiz Prates offereceu ao illustre casal um chá ao ar livre, em que tomaram parte figuras do maior relevo na alta sociedade de Itaipava... O chefe do Governo Provisorio teve opportunidade de ouvir attentamente as queixas da socie-dade itaipavense pelo lamentavel estado em que se encontra a estrada de rodagem Petropolis-Itaipava, com grande prejuizo para esta ultima cidade, destinada a tornar-se, em futuro bem proximo, uma estação de veraneio de primeira categoria".


Denise Tati