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Onde tudo começou

Passeando pela região de Itaipava, cheia de condomínios, shoppings, pousadas e restaurantes, é difícil imaginar que um dia, há não mais de 300 anos atrás, esses eram caminhos ásperos, percorridos por homens com espírito desbravador. Para lembrarmos esses tempos e nos situarmos na história vamos voltar a 1723, um século antes de D.Pedro II fundar Petrópolis - 1843. As primeiras minas de ouro tinham sido descobertas, a lavoura açucareira estava em plena crise. Homens que vinham do Nordeste decadente, das cidades, vilas e sertões, de Portugal e outras nações européias, ávidos da nova riqueza, iniciavam uma “corrida do ouro”, transformando a região das Minas Gerais no novo centro econômico do Brasil-Colônia.

A principal trilha que ligava o Rio de Janeiro, porto oficial do embarque das riquezas com destino à Lisboa, às Minas era o Caminho Novo. Atravessando a Serra do Mar, os tropeiros enfrentavam escarpas íngremes e terrenos alagadiços demorando, em média, 30 dias para fazer a travessia. Mais ou menos por volta de 1722, o sargento-mor Bernardo Soares de Proença descobriu uma variante do Caminho Novo que foi imediatamente adotada já que, além de ser menos acidentada, encurtava em 4 dias a viagem. Esse caminho, conhecido como Caminho da Serra da Estrela ou Caminho dos Mineiros, tinha o seguinte trajeto: da Baía de Guanabara, subia-se em pequenos barcos pelo rio Inhomirim até o Porto da Estrela, seguindo a pé até a Raiz da Serra depois chegando ao Alto da Serra. E a viagem continuava passando pela atual Rua Tereza, Quissamã, Itamarati, parte de Cascatinha, atravessando o Rio Piabanha, a Estrada do Carangola, Araras, Secretário, Fagundes, Cebolas e Santo Antônio da Encruzilhada, o bairro mais antigo de Paraíba do Sul. A partir desse ponto seguia em direção à Serra da Mantiqueira utilizando o mesmo traçado do Caminho Novo.

Como prêmio pela descoberta desse caminho, Proença ganhou da Coroa Portuguesa um lote de terra, uma sesmaria, a Fazenda Itamarati. O senhor Luis Peixoto da Silva, presumível companheiro de trabalho do sargento Proença, ganhou a terra vizinha, na época chamada de Fazenda Belmonte, depois Fazenda Samambaia.

Alguns anos depois chega à região o português Manuel Correya da Silva que, vindo de Goiás com fortuna acumulada na mineração, se encanta com a serra. Resolve então se fixar e, alimentando o sonho de construir uma cidade, compra uma sesmaria e depois outras fazendas vizinhas, inclusive a Fazenda Belmonte. Casa-se com Brites Maria da Assunção Goulão, filha única de Manuel Antunes Goulão, de quem também compra as terras se tornando proprietário de mais da terça parte do atual município de Petrópolis. Constrói uma estação de remonta com armazém, hospedaria e ferraria que passa a ser parada obrigatória dos tropeiros que viajavam do Rio para as Minas Gerais. Manuel Correya é o responsável pela formação do primeiro núcleo social da nossa região.

Um de seus filhos, Antônio Thomaz de Aquino Correya Goulão, decide-se pela carreira eclesiástica e ordena-se padre em 1783. Com a morte do pai, herda as terras denominadas Posse de Manuel Correya (atual distrito de Correias), que daí por diante passa a ser conhecida como a Fazenda do Padre Correya. Dona Brites, agora viúva e dona de grande fortuna, resolve ir morar com o filho padre. Amplia a casa e constrói uma linda capela dedicada à Nossa Senhora do Amor Divino. A imagem que ornamentava a capela foi trazida de Portugal e é considerada a mais antiga escultura sacra da cidade. Segundo a pesquisadora D. Maria Luiza Guimarães Salgado, descendente de Manuel Correya, essa capela e as da Fazenda Samambaia (antiga Belmonte) e Santo Antônio (antigo Engenho da Soledade), também construídas por D.Brites, foram, muito provavelmente, obras do Mestre Valentim, considerado, junto com Aleijadinho, um dos maiores artistas da época.

Dona Brites morre em 1800 e seu filho continua a investir na fazenda iniciando o cultivo de frutas européias - marmelo, pêra, maça, pêssego, uva e damasco. Como oferecia sua casa para hospedagem, Padre Correya tornou-se figura muito popular naquela época. D.Pedro I, quando viajava para Ouro Preto, costumava pousar por lá e, nos verões, fugindo do calor do Rio, passava uma grande temporada hospedado na fazenda junto com a imperatriz D.Leopoldina.

Quando Padre Correya morreu, em 1824, quem assumiu a fazenda foi sua irmã, D.Arcângela Joaquina. D.Pedro I continuou desfrutando a hospitalidade da família Correya inclusive criando certo embaraço quando ali se hospedou com sua amante, a Marquesa de Santos. Em 1829, já casado com D.Amélia, D.Pedro tenta comprar a fazenda mas D.Arcângela, não querendo se desfazer das terras, recusa a proposta e oferece a Fazenda do Córrego Seco que estava hipotecada a seu filho, o Cônego Alberto da Cunha Barbosa.

D.Pedro I realiza a compra em 1830, batiza as terras como Fazenda da Concórdia e faz planos de construir um palácio de verão. O projeto nem chegou a ser iniciado pois D.Pedro renunciou ao trono um ano depois. Só em 1843, através de um Decreto Imperial assinado por D.Pedro II, então com dezoito anos, é que se dá início ao povoamento da Fazenda Córrego Seco, depois chamada de Petrópolis, cidade de Pedro.

Sei que meu texto ficou cheio de datas - pelo menos estão em ordem - mas é que sem elas fica difícil organizar o assunto. Através delas posso concluir que se D. Arcângela Joaquina não fosse uma mulher tão determinada não teria dito não ao Imperador. Imagino, cá com meus botões, que esse não deve ter causado grande reboliço afinal D.Pedro só devia estar acostumado a ouvir sim. E se ela tivesse dito sim, muito provavelmente o centro do nosso município seria Correias. Mais ainda, se não fosse o sonho do pai de D. Arcângela, Manuel Correya, se não fosse D.Brites a lhe dar filhos, se não fosse o ouro das Minas Gerais, se não fosse a ambição do homem...eu não teria história nenhuma para contar.


Denise Tati