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Terra, água, ar e fogo: a química de Vicco Cordeiro

Vicente e Antonio Cordeiro foram dois irmãos que viveram com intensidade os anos 70 e suas formas alternativas de arte e sobrevivência. Nascidos em Minas Gerais, Vicente trabalhou no universo da publicidade paulistana e também no meio artístico, como desenhista. Antonio saiu de São Paulo para Cacha Prego, na Ilha de Itaparica, Bahia, com Alberto Cidraes, um jovem arquiteto português, apaixonado pela arte cerâmica e com uma rica passagem pelo Japão.

A vida em Cacha Prego e os trabalhos artesanais em bambu, conchas, e outros materiais disponíveis, conquistaram Antonio Cordeiro. Ele acompanhou Cidraes em sua busca por um lugar onde pudessem continuar vida e trabalho. Afinal, os tempos em Itaparica provaram à Cidraes, segundo suas palavras publicadas em seu site, que a utopia era possível.

Ao grupo juntaram-se Mieko e Toshiyuki Ukeseki, ceramistas experientes, mestres e amigos de Cidraes de seus tempos no Japão. Encontraram o espaço ideal em Cunha, cidade encravada na Bocaina paulista, meio caminho entre Rio e São Paulo. Estava formado o núcleo fundador da cerâmica de Cunha, onde Cidraes e Mieko permanecem trabalhando, produzindo e encantando.

Em Cunha, seguindo as instruções de Toshiyuki e Mieko, construíram um forno a lenha, um forno noborigama, trazendo para o Brasil as possibilidades da cerâmica de alta temperatura, a cerâmica pedra. Tradicionalmente, a cerâmica feita no Brasil era uma cerâmica de baixa temperatura, cerâmica terra.

Na técnica da alta temperatura, clássica na arte cerâmica japonesa, o barro trabalhado, socado, amassado e decantado, é submetido a dois processos de queima. Na segunda queima a peça é esmaltada com pigmentos obtidos na natureza, como cinzas de origem vegetal, pedras moídas e minérios como o caulim. O processo é lento e requer cuidado, dedicação e atenção redobrada, tanto no trabalho e preparação do barro e dos esmaltes, quanto na queima.

Vicente juntou-se ao grupo em Cunha. E ali os irmãos Cordeiro aprofundaram técnicas e conhecimentos na arte cerâmica, animados pela rica trajetória de Cidraes, Toshiyuiki e Mieko e seus ensinamentos. E Vicente, já então conhecido como Vicco, tornou-se um exímio ceramista.

No final dos anos 70 Antonio Cordeiro partiu para Teresópolis, região serrana do Rio. Com a ajuda dos irmãos oleiros Renato e Ricardo, de Três Rios, construíram um forno noborigama em Miguel Pereira. E Antonio chamou seu irmão, Vicco, para acompanhá-lo nesta nova fase.

Os dois passaram alguns anos vivendo e trabalhando em Teresópolis, introduzindo as técnicas e conhecimentos da cerâmica de alta temperatura na realidade fluminense. Até então ninguém, no estado do Rio de Janeiro, trabalhava com cerâmica pedra. E eles lutaram para conquistar espaço de divulgação e mercado para suas criações. Plantaram ali um novo núcleo cerâmico, um outro braço do universo de Cunha.

Em 1983 Antonio mudou-se para Caraguatatuba, onde ergueu outro forno noborigama, animando um novo núcleo cerâmico. E Vicco saiu de Teresópolis em busca de outro pouso. Encontrou abrigo em um sítio às margens do Rio Piabanha, em Areal, onde viviam ceramistas de origem inglesa. Ali Vicco construiu outro forno noborigama, mais uma vez com ajuda de Renato e Ricardo, os irmãos oleiros. Permaneceu na região banhada pelo Piabanha, entre Areal e Itaipava, até sua morte, nos anos 90.

Embalado por suas muitas leituras nas áreas de filosofia e antropologia, pela mística dos anos 70, e pelo sonho de Cunha, Vicco empenhou-se em recuperar o sentido mágico da cerâmica. Afinal, os fragmentos de cerâmica pré-colombiana que o antropólogo francês Lévi Strauss recolheu em seus passeios pelo interior de São Paulo estavam na origem destas preocupações, tanto nas do antropólogo quanto nas do artista.

Esta magia está explícita na série Formas Habitadas. Composta por vasos, cuias, potes e urnas sempre vazadas, elas são marcadas por pequenos objetos cilíndricos que ocupam os espaços ocos, como a vida. Nesta ponte recuperada entre o mágico e o cotidiano, Vicco refez o sentido dos objetos. Um exemplo é o admirável coração amarrado por voltas e voltas de arame farpado, hoje recoberto por musgos e heras, e que enfeita o mesmo quintal onde Vicco viveu nas margens do Piabanha.

Ao mesmo tempo, Vicco buscava a simplificação das formas que marcou a escultura modernista, desenhada principalmente nas figuras de Brancusi. A combinação destes três universos, quais sejam: a técnica milenar japonesa, a magia ancestral e a simplicidade do modernismo, marcaram a obra de Vicco, imprimindo-lhe uma originalidade única.

Ricardo e Renato, os irmãos oleiros e mestres no torno, lembram, ainda hoje, a dedicação e empenho de Vicco na concretização de seus projetos e criações. Os desenhos e estudos, as pesquisas de terras e pigmentos entre pedras moídas e cinzas, a preocupação com as queimas, envolvendo desde a qualidade e origem da lenha que alimentava o forno até a quantidade da lenha a ser queimada. Recordam dias e noites em vigília, guardando o fogo, alimentando-o com quantidades exatas de lenha, de modo a manter o equilíbrio da temperatura ao longo de todo o processo de queima.

A riqueza e o rigor de seu trabalho conquistaram a crítica de arte especializada dos anos 70 e 80, abrindo espaço para exposições, como a da Sala Funarte, no Rio de Janeiro em 1978, e aquelas no Museu de Arte de São Paulo, o MASP, em 1983 e em 1992.

No inicio dos anos 90 Antonio Cordeiro morreu em um acidente. E em 1998 Vicco também veio a falecer. O trabalho de Antonio Cordeiro foi lembrado em 1992, em uma homenagem póstuma realizada no MASP, acompanhada por uma exposição de Vicco. Uma obra de Antonio Cordeiro permanece exposta na Estação D.Pedro II do metrô de São Paulo. E uma escultura de Vicco Cordeiro emoldurou a entrada de uma escola, o Centro de Ensino Moderno, em Teresópolis. Não sabemos se ainda está ali. Trabalhos de ambos permanecem em exposição no MCC, o Memorial da Cerâmica de Cunha, preservados com dedicação por Mieko e Cidraes.

A presença de Vicco desbravou a nossa região para que novos ceramistas buscassem, nas serras fluminenses, um lugar para suas criações, ao abrigo de novas linguagens, técnicas e experiências. Ela se multiplica em grupos e indivíduos que trabalham com cerâmica de alta temperatura na região.

A química de Vicco Cordeiro continua viva nas margens do Piabanha.


Texto de Monica David