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Os pioneiros das Baladas

A noite estava só começando. A lareira estava acesa e na vitrola Philips de pé-palito, seis discos de vinil já estavam posicionados para embalar os dançarinos. Um long-play de Ray Connif, como era a tradição do lugar, seria o primeiro a tocar. No bar, todos os ingredientes necessários para assegurar a animação: a dupla Vodka e Crush formariam o indispensável Hi-Fi, o Rum e a Coca-cola comemorariam a revolução de Fidel Castro, era a Cuba-Libre!

Pois é, Itaipava também teve seu point nos anos 60. Na verdade, essa matéria é sobre o primeiro bar bacana aqui desse nosso cantinho de serra, o Bia’s Bar. Antes dele ser inaugurado, no verão de 1960, as famílias e a juventude local ou de veranistas não tinham nenhum lugar gostoso para freqüentar. Alguém tinha que dar a partida.

Os pioneiros das nossas baladas foram Alberto, Beto, Costa e Ana Beatriz, a Bia´s. Para ser exata com a história, antes do Bia´s Bar eles montaram uma pequena sorveteria bem na cabeceira da ponte que chamamos, por falta de um nome oficial, de ponte do Artesão. A sorveteria ficava na margem da BR 40 que, naquele tempo, ainda não tinha sido construída. Só para situar: naquele trecho, onde hoje tem um viaduto, ficava a estação de trem e, mais ou menos em frente da Telemar, tinha uma pracinha. Ou seja, cenário perfeito para uma sorveteria. E, realmente, a sorveteria foi um sucesso até que, numa noite, algum alucinado malvado, provavelmente inspirado pela terrível inveja, espalhou querosene no lugar e ateou fogo destruindo tudo.

Só que, como se diz, o que é do homem, o bicho não come. A toque de caixa eles transformaram a garagem da casa deles, que ficava bem ali pertinho, e reabriram a sorveteria. Como tudo tinha sido queimado, valeu o improviso. Um amigo carpinteiro construiu algumas mesas e banquinhos com casuarinas, e da casa deles veio a geladeira, a louça, os copos, a decoração e a vitrola. A clientela logo achou o caminho e o sucesso continuou.

A proposta da nova sorveteria era a mesma da primeira e o horário de funcionamento também: abria de tarde e fechava por volta das oito da noite. Só que os fregueses foram pedindo para esticar e o horário foi andando até que o Bia’s passou a abrir na hora que fechava e ganhou um novo perfil, virou boate.

A seleção musical era de primeira e ia dos americanos Ray Charles, Cole Porter, Glenn Miller, Elvis Presley, Chet Baker, Tomy Dorsey, Johnny Mathis, Frank Sinatra e Nat “King” Cole aos italianos Nico Fidenco, Pepino di Capri, Mantovani e Rita Pavoni. Entre uma Vaca Preta e um misto quente puxa-puxa os passos de twist, haly galy, rock and roll e cháchá-chá animavam a garotada. A pista de dança ficava lotada e as coreografias impressionavam os novos clientes. É que a Bia, dona do bar, famosa por ser uma pé de valsa animadíssima, dava aulas gratuitas para quem se interessasse durante as tardes, antes das portas do Bia’s abrir.

Mas essa mudança de estilo não alterou o perfil que era a marca registrada da casa: um barzinho com ambiente familiar. A garotada, geralmente, ia acompanhada dos pais e todos dançavam juntos. Mas, se os pais não iam, bastavam algumas “recomendações” para o casal proprietário e tudo estava resolvido: fulaninha tem que voltar para casa às onze horas, cicraninha ainda não pode beber, beltraninha pode comer uma Banana Split, ou tomar um Grapette e amanhã eu passo aqui para pagar. E assim tocava a banda em tempos onde todo mundo em Itaipava se conhecia.

Bia e Beto, na época, tinham três filhos. Antes do movimento começar, davam banho e colocavam pijamas de flanela - provavelmente comprados nas Casas Pernambucanas - nos meninos: Betinho, com 7 anos, Paulinho com 5, e Carleto com 8 meses. Não que isso representasse alguma garantia que os meninos fossem dormir, afinal, o Bia’s funcionava na garagem da casa deles. Também não era problema algum caso os meninos fossem para o bar, colo não faltava. Além disso, eles não eram as únicas crianças do pedaço já que Beto e Bia liberavam a casa para que outros pimpolhos dormissem, ou não, enquanto os pais dançavam.

A fama de lugar legal atravessou as fronteiras do nosso município e turmas do Rio e de Teresópolis começaram a aparecer. Várias notinhas elogiando o lugar saíram em jornais da época, como essa, retirada do Jornal do Brasil/1962:..uma boate com muito boa freqüência e música em hi-fi. Ali, durante o verão, as noites são movimentadíssimas com presença de figuras de destaque da sociedade carioca e petropolitana. E junto com a fama vieram os famosos: Sr. e Sra. Pitangui, a miss Brasil Marta Rocha, Eduardo Suplicy e sua namorada Martha, a família Tornaghi, os filhos do deputado Amaral Neto, Dida, craque do Botafogo, e o pessoal da música como Lana Bittencourt, João Roberto Kelly e Dorival Caymmi que, uma noite, pegando o violão que ficava pendurado na parede do Bia’s, deu uma canja memorável.

O Bia´s funcionou a todo vapor durante 5 anos deixando saudades naqueles que tiveram a sorte de estar por aqui naquela época. Por isso, tenho certeza, essa matéria vai reavivar outras histórias como o dia que teve uma super enchente e, mesmo com água até os joelhos, os fregueses continuaram dentro do bar fazendo a maior farra. Ou o dia que dois carros entraram ao mesmo tempo na ponte e, como nenhum dos dois queria ceder, um largou o seu Gordini lá, foi pro Bia´s, e provocou um mega engarrafamento. Só que o tal gaiato teve que voltar correndo porque uma turma, que também queria se divertir, carregou o seu pequeno automóvel e o colocou na linha do trem. E por ai vai.

Lembranças do matinho
Usando calça cigarette, ao estilo Brigitte Bardot, conjunto de blusa e casaquinho de Banlon, sapato baixo e meia soquete, Ioana foi uma cliente das mais animadas do Bia´s Bar. Animada e sapeca já que confessa ter fugido de casa muitas vezes, pulando a janela do quarto, para ir escondida ao Bia`s. Mas claro que ela não ia sozinha. O resto da turma estava esperando dentro do carro que, muito espertamente, era deixado com o motor e os faróis desligados para não acordar o pai da moça, considerado uma fera. Tudo muito normal, afinal estamos falando de uma época onde tudo era proibido. Só no final dos anos 60 é que as coisas começam a afrouxar. Woodstock é a prova disso. Mas enquanto isso, é claro, todo muito dava um jeitinho de dar uns beijinhos e Ioana, no caso, é que é a prova disso: “ Tive uma mocidade muito gostosa aqui em Itaipava e o Bia`s Bar, com certeza, faz parte dessa lembrança. O Bia´s vivia lotado e o zum-zum-zum do lado de fora era tão divertido quanto o lado de dentro. A música era espetacular. Eu adorava dançar mas era um pouco tímida então eu tomava um Hi-Fi e acendia um cigarro, achava aquilo o máximo. Não tinham muitas músicas que davam para dançar de rosto colado mas na hora do twist as pernas se encostavam um pouco e rolava um clima diferente. Mas bacana mesmo era quando o trem apitava para avisar que estava chegando e todo mundo saia correndo do bar para ver ele passar, o Bia´s esvaziava. Só que muitos iam e poucos voltavam. É que tinha um matinho...”

Quebra-Quebra
Como todo bar que se preze, no currículo do Bia’s não podia faltar uma briguinha. E mais, uma briguinha entre turmas. Pois é, a garotada andava em turmas: tinha a Turma do Country, do Ribeirão, do Castelo, da Posse, da Boa Esperança, do Touring e muitas outras. Ninguém sabe bem ao certo o motivo da briga mas o mais provável foi que alguém de uma alguma turma se atreveu a paquerar outro alguém de outra turma. Venhamos e convenhamos, um motivo mais do que justo para dar início ao bafafá que, além de alguns socos e pontapés, bem ao estilo faroeste, teve direito a cadeiras voadoras. As meninas correram para dentro da casa do casal, Bia protegeu a vitrola – “ Meu negócio era o som” – e Beto, junto com o único garçom da casa, trataram de proteger as garrafas e os copos. Quando a briga, finalmente, passou para o lado de fora do bar, uma nova arma foi utilizada entre os arruaceiros: bolas de barro! Isso aí, tinha chovido, o chão era de terra... “ Foi uma confusão gozada”, se recorda Bia.


Denise Tati