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A engenhoca em três etapas

No começo de sua vida como grande proprietário de terras na nossa região serrana, bisavô José Candido Monteiro de Barros residia na sede da fazenda Olaria, onde, anos depois, o barão de Teffé construiu o castelo São Manoel que se encontra lá até hoje.

Foi ali que nasceram todos os seus filhos. Por infelicidade e pela falta de recursos médicos naquela época, os filhos homens do casal José Candido e Maria Angélica Moreira Guimarães faleceram ainda crianças. Por isso, quando se mudou para a fazenda da Engenhoca, foi acompanhado apenas de mulheres: a esposa e as filhas.

Este período será a primeira etapa de nossa história que se localiza no final do século XIX e em um pequeno período do início do século XX.

A filha mais velha, que vem a ser minha avó, mãe de meu pai, se chamava Adelaine, nhá Delaine, depois vinha Maria Teresa, Sinhazinha. Muito tempo depois, quando Adelaide já havia se casado e tido sua primeira filha, nasceu Laura.Vivia então toda a família naquela bela casa, que tinha nos fundos um lindo vale, com matas virgens, que certamente eram habitadas por muitos animais, principalmente os que deram nome ao local: Caititu. Podemos imaginar as delícias de um passeio neste vale cheio de nascentes que engrossavam um córrego que ainda conheci limpo e com bom volume de água.

A casa da fazenda era servida por duas pessoas das quais muito ouvi falar; os ex-escravos Petronilha e Adão. Era filho deste casal Alfredo – apelidado Alfredo Moleque – da mesma idade de papai e que foi dele um grande companheiro, pois viveram juntos desde que o vovô Zé Candido tomou a si a incumbência de criar este novo neto, Gabriel (meu pai), que nasceu quando o irmão que o precedia tinha menos de um ano. Foi nesta fase da Engenhoca que papai viveu os seis primeiros anos de sua vida, sempre acompanhado do Alfredo Moleque, que passou a ter este apelido talvez porque era anão. Ele acompanhou papai por tanto tempo que quando este, já médico e pai de um garoto, ia de motocicleta ver algum paciente em casa levava os dois, um na garupa e outro sentado em cima do tanque de gasolina. O garoto era eu, José Candido, e o Alfredo Moleque a minha babá anã.

Enfim, voltemos à Engenhoca dos primeiros tempos. O fundo da antiga fazenda era constituído por um grande vale, que hoje é um arrabalde de Correias, chamado Caititu, onde mora atualmente um grande conhecedor de nossa história, ou melhor, da história do local onde mora. Falo de Francisco Vasconcelos que publicou há pouco tempo uma longa biografia do dono da propriedade, Dr Edwiges de Queiroz Vieira, no período que vamos descrever agora.

O Dr. Edwiges de Queiroz Vieira foi Chefe de Polícia, Governador do Estado e Ministro da Agricultura. Na passagem do século XIX para o século XX morre o casal Monteiro de Barros e começa a segunda fase da Engenhoca. A fazenda foi herdada pela filha do meio, Maria Teresa, então casada com Dr. Edwiges e, nesse período, a Engenhoca viveu seu momento mais movimentado e alegre. Nesta fase a movimentação política foi intensa, sendo a fazenda freqüentada por importantes figuras políticas da época como o marechal Hermes da Fonseca, Nair de Teffé, Pinheiro Machado e muitos outros. Acho que a casa, nesta época, vivia cheia, pois lá moravam além do casal, meu pai, a irmã mais moça de Sinhazinha, Laura, já viúva, e suas duas filhas, Glória e Lourdes. Também morava lá Eduardo, irmão mais moço de papai, que foi criado pelo casal Queiroz Vieira, tanto assim que acrescentou a seu nome, Eduardo Bastos o sobrenome do pai de criação - a quem chamava de Vivi - passando a chamar-se Eduardo Queiroz Bastos. Ali nesta ocasião foi realizado o casamento de meus pais, e nasceram naquele casarão os dois primeiros filhos do casal, Mariazinha e eu, José Candido.

A vida na Engenhoca era intensa, tanto na atividade política como na atividade social. Fizeram história os jantares para os amigos e correligionários do Edwiges que Plácido, um excelente cozinheiro, preparava e que eram servidos pelo copeiro Manoel, de quem tenho uma vaga lembrança. Os amigos eram muitos e o ambiente era de festa e alegria. Também eram muito comentadas as festas do mês de Maria, sendo as solenidades religiosas realizadas numa pequena igreja que ficava no lado direito da casa. Era um mês de festanças que culminava com a famosa coroação de Nossa Senhora no dia 31 de maio. Falavam muito destas festas, com música sacra cantada por Mamãe Laura, tio Eduardo e um personagem importante, George James, que foi sempre muito elogiado por todos, e principalmente por papai que apreciava a linda voz do rapaz. Era a época do grande apogeu da fazenda, alegrada ainda pela inauguração do Derby Petropolitano (Jockey Club de Petrópolis, atualmente Prado) cuja porta principal ficava bem em frente ao gramado da Engenhoca.

Muito tempo depois da morte de Edwiges, titia Sinhazinha vendeu a propriedade ao Doutor Valois Souto, para naquelas terras construir o Sanatório de Correias. A casa foi abandonada, e a capela servia apenas de depósito, para onde iam os doentes que morriam no sanatório. Era a terceira fase da Engenhoca de saudosa memória.As únicas coisas que restaram da alegria anterior foram dois tipos de coqueiros que ficaram por ali e aonde, mesmo depois de anos passados, nós ainda íamos colher alguns frutos. Daí à destruição total da casa, depois de muitos anos abandonada, foi um pulo. Agora está lá aquele monte de casas sem encanto, sem vida e sem passado. Foi a última e triste fase da velha casa em que nasci e da qual, como recordação, tenho um quadro a óleo reproduzindo a Engenhoca, copiado de um antigo retrato preto e branco, com alguns elementos acessórios que eu forneci a Luli Pardal, que o pintou.A venda da Engenhoca foi a última bobagem imobiliária, das muitas que a família fez, destruindo e retalhando o grande latifúndio herdado e conservado quase intacto por José Candido Monteiro de Barros.


Depoimento de José Candido Monteiro de Barros Bastos nascido na Engenhoca, em 9 de julho de 1916