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Carta-chamada

Itaipava é uma região de muitas histórias para contar. Entre as mais conhecidas está a dos ceramistas que aqui chegaram, no início da década de 50, vindos da região de Alcobaça, em Portugal, e por longos anos fizeram dessa atividade uma das mais prósperas no lugar que, na época, possuia características totalmente rurais. Mas nem só da tradição ceramista viveu Itaipava naquela ocasião. Os imigrantes portugueses que aqui desembarcavam, vindos em busca de uma vida melhor do que a que o pós-guerra lhes oferecia na Europa, desenvolviam também outros tipos de atividades, como por exemplo, a floricultura.

E a história da floricultura na região possui alguns personagens que merecem destaque. Um deles é Maximino Duarte Pereira, oriundo da região de São João do Monte, no Concelho de Tondela, distrito de Vizeu, que era em Portugal uma região de produção agrícola, em especial a horticultura, a fruticultura (designadamente maçã) e viticultura. Maximino chegou em 1952, após uma viagem de cerca de quinze dias de navio. Viagem complicada na época, devido à precariedade dos barcos, que balançavam muito com as marés. Inicialmente, desembarcou em São Paulo, e lá se estabeleceu.

Desde então, trocava correspondências com Maria dos Anjos Martins, sua colega de escola primária em Viseu, que mais tarde viria a se tornar Maria dos Anjos Duarte. Ela acabou se encantando pelas belezas da “nova terra”, que eram retratadas sob a forma de palavras nas longas cartas que recebia. Veio também para o Brasil.

Após o namoro, logo se consolidou a união, e pouco depois a descoberta por Itaipava. A família Duarte seria uma das primeiras a se estabelecer na região de Santa Mônica, no terceiro distrito de Petrópolis, e lá iniciou a produção de flores do campo, criando em companhia de outros conterrâneos de Viseu, um núcleo de produtores, como outros que mais tarde viriam a ser criados em outras áreas do município, como o Morro do Facão em Araras, Caxambú, Mata Porcos (Corrêas) e Jacuba. Porém, o mais desenvolto na época próspera do negócio era, sem dúvida, a região de Santa Mônica.

A primeira propriedade adquirida pela família foi uma chácara na Estrada da Cachoeira, onde hoje está localizado o Sítio do Moinho. Já estabelecidos, e felizes com o trabalho no campo nessa região, Maria dos Anjos e o marido resolveram convidar o irmão e cunhado, respectivamente, Américo Henriques Martins, para vir para Itaipava, suprindo assim uma necessidade de mão de obra então existente. Surge então nosso segundo personagem. O jovem de apenas quatorze anos (que iria completar 15 anos de idade em plena viagem ao Brasil, na tradicional parada na Ilha da Madeira) aceitava prontamente o desafio.

Mas a vinda de Américo para o Brasil não seria, na época, tão simples assim. Primeiro, ela dependia de uma carta de chamada, ou carta-chamada, que era enviada aos parentes em Portugal, sugerindo a vinda de alguns deles. Através deste documento, aquele que já estava devidamente estabelecido no país fazia um convite a um conterrâneo seu, parente ou não, para viver no Brasil. Neste convite, ele deveria se comprometer a oferecer alimentação, moradia e trabalho, com salário que possibilitasse a subsistência digna do então “convidado” aqui. Esta carta era levada ao consulado e registrada como documento de entrada e permanência no país.

Ultrapassada essa etapa, e liberada sua vinda para o Brasil, iniciava-se outra fase não menos árdua: a viagem de navio. Américo conta que eram muitos os jovens de origem portuguesa e espanhola que se aventuravam nessa nova empreitada. Sua vinda se deu em um navio argentino, pequeno, que muito balançava. Saiu no dia 25 de julho de 1958 e aqui chegou em 4 de agosto.

A saudade dos pais, e do lugar onde vivia foi, ao longo dos anos, sendo compensada com as conquistas alcançadas. Logo conheceu Maria, conterrânea cuja história em muito se parecia com a sua, e junto a ela mudaria um pouco o rumo de sua vida. Maria também era integrante de uma das cerca de doze ou treze famílias de Viseu que descobriram a região de Santa Mônica, e que aqui desenvolveram por anos o cultivo de flores do campo. Todos se ajudavam mutuamente, trocavam alimentos, como pães caseiros, linguiças, coelhos, galinhas etc. Era uma comunidade muito unida, formada por parentes e amigos.

Foram anos de trabalho árduo, do qual participavam homens e mulheres. No início, a plantação ficava a cerca de cinco mil metros do local mais próximo onde os veículos de transporte podiam chegar. A produção era, após a colheita, transportada em carroças ou lombo de burros, até o caminhão que fazia a distribuição das flores para o Rio de Janeiro e São Paulo. Mais a paixão pelo plantio de flores acabava compensando todo o sofrimento.

Depois de trabalhar com o cunhado, Américo adquiriu sua própria chácara, e nela prosperou. Hoje, é um dos poucos portugueses daquela época que ainda persiste com o negócio. A maior parte da famílias que fizeram da região de Santa Mônica um núcleo de produtores de flores em Petrópolis não mais sobrevivem da atividade, pois seus herdeiros, tendo estudado, buscaram outros caminhos longe do trabalho duro de seus pais. Por sorte de Américo, o filho Luis Fernando, formado em administração de empresas, optou por introduzir seus conhecimentos no próprio negócio do pai, fazendo, talvez isso, a diferença.

Mas, fica para nós um exemplo a ser seguido. Que o trabalho honesto e eficaz, qualquer que seja a sua natureza, é capaz de evoluir. Com ele, Américo conseguiu progredir, adquiriu bens, deu educação à sua prole, e incentivado pelo filho voltou à sua terra natal, depois de quarenta e cinco anos, para rever seus familiares. Quando lá chegou, seus pais já não estavam mais. Ficou a saudade e as lembranças das cartas que eram trocadas com constância. Mas pôde rever os irmãos, cunhados e sobrinhos, que hoje trabalham nos vinhedos da família em Viseu.