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Salgado Filho e o Vale do Cuiabá

Após vitória da Revolução de 1930, Salgado Filho convidado pelo Chefe de Policia Baptista Lusardo, passou a pertencer aos quadros do novo governo que se estabeleceu, ocupando a difícil direção da 4ª Delegacia Auxiliar que tratava dos assuntos da ordem política e social. Devido ao afastamento do titular, foi nomeado para a chefatura da instituição, até ser convidado por Getúlio Vargas para ocupar a direção do recém criado Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.

Em 1935, Salgado Filho tendo se demitido do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, procurava um sitio para comprar, pois achava que seus filhos não aproveitavam da infância, convivendo sempre com adultos e muito pouco com ele próprio, devido aos compromissos políticos assumidos juntamente com o ministério. Achava que as crianças deviam conviver com animais, plantas, terra, barro, chuvas e sóis para, como ele mesmo se lembrava, construir a própria personalidade em convívio com a natureza.

Depois de muita procura, por indicação de seu amigo Francisco Lampreia, encontrou o sitio no Vale do Cuiabá, terceiro distrito de Petrópolis, longe de tudo e servido por péssimas estradas. Por esse motivo, o preço estava dentro de suas possibilidades.

Era uma antiga fazenda decadente, quase em ruínas, cercada por terrenos alagadiços, cuja área era cortada pelo Rio Santo Antônio do Cuiabá, que nascia nas serras de Teresópolis.

Desde o inicio percebera que teria enorme trabalho pela frente, mas, como os desafios sempre o seduziram, planejou a restauração da propriedade e imediatamente iniciou o trabalho. Em alguns meses, transformou a ruína em uma casa habitável. Escorou o telhado com toras de madeira, substituiu as paredes de pau-a-pique por alvenaria, aproveitou todas as janelas, portas, tetos e telhados. E se deu ao luxo de equipar a casa com banheiro servido de água quente, através de uma serpentina instalada dentro de um fogão inglês, adquirido de segunda mão em Petrópolis, já que não dispunham de energia elétrica. A iluminação noturna era obtida pelo uso de lampiões de querosene. O grande requinte de conforto consistia numa lareira, por ele construída com a colaboração dos pedreiros locais e informações de revistas de arquitetura adquiridas com aquela finalidade.

O sitio possuía excelente água, pois mandara examiná-la pelo Ministério da Agricultura e com a casa pronta, começou a cultivar uma horta e pastagens para umas vaquinhas que pretendia adquirir. A casa ficou habitável em meados de junho, em pleno inverno e os meninos aproveitaram as férias de meio de ano para inaugurar o Sitio Sant'Anna, como passou a ser chamado, em referência à estância que seu pai possuía no Uruguai, quando viveu exilado entre 1893 e 1899, depois da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul. Em comum, só tinham o frio, pois no Uruguai tudo era planura e o sitio do Cuiabá era tudo montanhoso. Conseguiu transmitir aos filhos a riqueza de uma vida simples em contato direto com a natureza.

Era uma grande aventura chegar ao sítio pelas estradas de terra, intransitáveis em período de chuva. O seu sogro, que já possuía casa em Petrópolis, conhecia bem a região e presenteou-lhe com um Ford 29, único veículo que conseguia transitar por estes caminhos.

Durante o inverno era estação seca, o que muito facilitava a ida ao sitio, época na qual realizavam churrascos preparados à maneira campeira gaúcha, quando reuniam a família no jardim construído no fundo da casa.

Plantou centenas de arvores na propriedade e trouxe consigo roseiras do tempo de sua infância, quando morava em São Cristovão, e que permanecem vivas até os dias atuais, assim como jasmineiros e camélias.

Eram freqüentes os passeios a cavalo, subindo e descendo as serras, nos quais Salgado Filho era sempre acompanhado por seus filhos, cujo brilho no olhar e o corado das faces provavam a ele que, daquele momento em diante, as crianças passaram a ter a infância que ele havia sonhado para elas.

O sítio havia mudado a rotina da vida de sua família, a qual passara a desejar a chegada das sextas-feiras, dia de arrumar as maletas e subir a serra de Petrópolis. Naquele lugar ele se esquecia das responsabilidades que pesavam sobre seus ombros, notadamente durante o período de 1941 a 1945, quando exerceu o cargo de ministro da aeronáutica durante a Segunda Guerra Mundial, quando lhe coube a árdua tarefa de organizar a defesa aérea do Brasil e a preparação da Força Aérea Expedicionária que combateu na Europa.

Tal era o entusiasmo da família Salgado que amigos seus passaram a se influenciar por ele. Conseguiram trazer José Machado Coelho e os irmãos Soares Sampaio, como novos moradores do Vale e seus novos vizinhos.

Tive o prazer de conhecer essa propriedade em 1947 com o Dr. Salgado Filho ainda vivo. Ainda me lembro nitidamente das longas conversas ao pé da lareira acesa, em pleno mês de junho, e das intermináveis conversas nas quais relembrava fatos de sua infância e juventude, que muito me fascinavam, pois sua personalidade absorvente marcava a todos que com ele tiveram a ventura de conviver.

Nunca deixei de me surpreender com o fascínio que a serra exerce sobre aqueles que apreciam as belas paisagens da região e do bem estar que proporciona seu clima tão ameno.

Salgado Filho faleceu em 1950, em desastre de avião no Rio Grande do Sul e a Câmara Municipal de Petrópolis deu o seu nome à antiga Estrada do Vale do Cuiabá, em homenagem ao seu ilustre morador.


Maysa Salgado